Apreciação crítica, O Homem Bruxa, Porto Verão Alegre.

Se “O presente é o reflexo do passado, e o futuro é o reflexo do presente” como nos canta André Abujamra, na simplicidade dos versos da música de sua autoria Espelho do Tempo, fruto do seu mais recente espetáculo musical, O HOMEM BRUXA. Então, nós temos a sorte de viajar pelo infinito céu particular desse artista multimídia. Sim, porque essa especificação ultrapassa o rótulo desgastado e, no seu caso, é uma definição concreta e consistente. Reflete o seu talento indiscutível para as artes do palco. Nele, André extravasa as suas potencialidades criativas numa narrativa fluida, onde encarna um mago futurista, que observa a si e ao mundo com sua perspicácia e poderes paranormais. Os instrumentos ganham vida e contracenam com o mestre que, depois de alguns quiproquós nonsenses, extrai sonoridades espetaculares.

Aproveita o seu alter ego de Bruxo/Bruxa, para refletir sobre a passagem do tempo, os absurdos da sociedade capitalista e a própria vida com lentes de aumento, sem poupar nada nem ninguém, fazendo jus à influência paterna de Antônio Abujamra, mas com a sua própria voz, seu brilho autêntico de músico, compositor, arranjador, maestro e ator. Comunicando-se com o público com sua usual irreverência, mas com um rigor técnico e estético irrepreensíveis, conduz a plateia pelos labirintos imprevisíveis da mente para nos lembrar de maneira muito bem-humorada, e repleta de lirismo, o caos do pensamento. Um espetáculo cine musical que utiliza os recursos do cinema, da música e do teatro para coordenar, com rara sensibilidade, uma experiência sensorial única. Como nos impagáveis momentos que contracena com Jerry Lewis tocando saxofone, na sequência “comercial” do shampoo e do xarope que produz maravilhas nos consumidores, na perturbadora sequência rock in roll com o contraponto de sequências antológicas do cinema mudo, ou na comovente Mãe Cazu.

Anti-herói, dono da cena, o Bruxo Abujamra chacoalhou a todos, rindo de si próprio e da ridícula, mas igualmente sublime condição humana. Ancorado por uma equipe técnica afinada e conectada com o melhor do que a tecnologia oferece, nos brindou com um show intimista de vanguarda. Com direito a participações especiais do escritor Fabrício Carpinejar e do mímico Gabriel Guimard, na plateia; do pianista Arthur de Faria no piano e a aparição fantástica e de Hique Gomes num duo memorável.

A presença vulcânica de André Abujamra contagiou a todos que, feito crianças, rimos e cantamos em coro pela celebração da vida em comunhão no Theatro São Pedro, na segunda feira à noite. Um meteoro de primeira grandeza que levitando, diante dos nossos olhos perplexos, desapareceu de cena e, depois do bis, nos deixou com um sentimento de plenitude que se chama felicidade. Espero que da próxima vez que esse fenômeno reaparecer por aqui, que permaneça em cartaz, pelo menos um final de semana. Assim os leitores incrédulos ou os fãs apaixonados poderão desfrutar dessa ópera moderna brasileira realizada por um homem só.

Nora Prado
Porto Verão Alegre, terça-feira, 10 de janeiro de 2017.

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