Apreciação Crítica, O Anexo Secreto, Porto Verão Alegre 2017.

A história de Anne Frank é uma das mais belas narrativas de resistência e esperança escritas pelo ser humano. Uma sensível auto-revelação de uma menina dos 13 aos 15 anos para suportar a solidão de existir num mundo que se desmanchava diante do preconceito e da barbárie nazista. A jovem Anne teve a coragem e disciplina suficientes para fazer de seu diário uma afirmação no espírito luminoso e transcendente, a sua crença da bondade humana, apesar de tudo. Baseada na exposição legítima de suas dúvidas, descobertas, medos, sonhos e desejos de uma adolescente em pleno auge da segunda guerra mundial. Uma testemunha da ira e perseguição nazista sobre os judeus e a cultura iídiche no século XX.

Seu testemunho delicado e sincero nos deu a dimensão da crueldade vivida por inúmeras famílias judias e grupos de minorias atingidas pelo ódio alemão da época do partido nacional socialista. Uma página sangrenta que a história contemporânea insiste em lembrar para que não se repita jamais. Embora novos genocídios modernos sigam perpetuando o ciclo de maldades e aberrações dos poderosos sobre os fracos e oprimidos, a saga do holocausto judeu é fonte inesgotável para reconhecer o germe do mal da sociedade civilizada. Encontra no Diário de Anne Frank sua expressão mais contundente quanto dilacerante, pois sua autora morreu sem conhecer a liberdade, dentro de um campo de concentração poucos meses antes do fim da segunda guerra mundial.

Graças ao seu diário, tão minucioso quanto honesto, podemos conhecer os meandros da intolerância em sua face mais brutal e absurda. O anexo secreto onde Anne, sua família e amigos passaram mais de dois anos confinados, nos dá a medida de sacrifício e coragem para suportar tamanho regime de opressão. Sua história rendeu peça, filme e ainda hoje, inspira jovens e adultos em todo o mundo. Depois da Bíblia é o livro mais editado e vendido há décadas. É natural que sua vida seja modelo e fonte para inúmeras versões e incursões artísticas, pois sua temática se concentra sobre os instintos mais básicos que forjam nossa desamparada humanidade: Eros e Tânatos. Os impulsos essenciais sobre os quais se forma a nossa complexa e intrigante psique. Mais natural ainda que sua vida seja mostrada através de encenações e reedições literárias pelo mundo afora. O anexo virou museu em Amsterdã, sua cidade natal, e sua escrita formidavelmente sensível continua um hino de pacificação num mundo doente e cronicamente inviável.

Por isso a montagem de mais uma versão sobre essa temática da guerra vivenciada e descrita por uma adolescente, seja tão relevante quanto oportuno. Que eu tenha notícia houve poucas montagens brasileiras contando essa experiência sui generis. Que bom que isso esteja acontecendo nos palcos gaúchos, pois tratam de um fato histórico com vocação para repetição caso a prepotência e egoísmo das classes econômicas dominantes não sejam devidamente contidas e coibidas em seu instinto opressor compulsivo. Na sua ganância de poder e lucro desenfreado. Na sua agressiva campanha difamatória contra grupos e minorias étnicas cultivadas em terrenos subjetivos do preconceito e da intolerância. No Brasil e no mundo uma onda de retrocesso e ódio toma conta da mentalidade das classes sociais em geral e encontra terreno fértil na mesquinharia da classe média que sempre precisará de ridículos tiranos que oprimam quem eles consideram inferiores e lhes rouba o direito de serem supostamente “melhores” que todos. As rivalidades e cisões extremas entre grupos de direita e esquerda atingem cumes inimagináveis. Os ódios e guerras reais e virtuais através das redes sociais demonstram o quanto somos reféns dessas verdades consideradas absolutas. Ilusões que destroem nossa capacidade de viver em harmonia num mundo potencialmente mais justo e sadio.

Razões concretas para uma montagem não faltam e o grupo de atores dirigido por Fernanda Moreno e Juliano Rabello consegue fazer uma leitura delicada e aprofundada da vida de Anne Frank. Livremente inspirado no seu diário, o elenco dá voz aos personagens que compõe a galeria da autora, desde os colegas de escola no começo da perseguição e a formação dos guetos onde os judeus eram identificados com a estrela de David, até o confinamento autoimposto no anexo secreto como estratégia de sobrevivência. Iniciar a narrativa na frente do Teatro Renascença, ao ar livre foi uma ótima escolha para delimitar o espaço público da sala de aula, aonde o preconceito e o isolamento vai sufocando paulatinamente a comunidade judaica. Esse choque espacial baseado na opressão alemã fica mais evidente quando passamos para dentro da sala Álvaro Moreira, onde se situa o esconderijo secreto da família de Anne e seus amigos. O contraste entre a liberdade das ruas e bairros anterior a perseguição nazista com a convivência regrada, opressiva e sufocante do anexo para onde eles se mudam durante a ocupação alemã é seca e direta como uma bofetada. As sequências cotidianas cuja atmosfera, contida e tensa, é vivenciada pelos personagens com dolorosa fibra adensa conforme o tempo passa, numa narrativa cheia de alegorias e metáforas sobre a opressão contínua e carregada de desprezo.

Anne, sua irmã Margot, sua mãe e seu pai, juntamente com os pais de Peter e o dentista Sr. Van Dan, sofrem todas as privações possíveis em mais de um par de anos confinados naquilo que Sartre chamou de “inferno”, justamente por considerar a convivência com os outros o maior desafio que se pode conhecer. Numa estreita e asfixiante relação de compartilhamento entre “vizinhos”, que se revela profundamente neurótica e doentia. Onde seus membros, mesmo sob um forte regime de normas de convivência, não podia escapar das mesquinharias e tiranias cotidianas. Dentro dessa coexistência limitada pelo olhar e desejo do outro, nossa heroína segue firme em seu propósito de tornar-se escritora. Tarefa que executa com determinação, capricho e subjetivamente, também, como válvula de escape para sobreviver as agruras de um dia a dia sombrio. As notícias vinham através do rádio e o racionamento da alimentação, bem como, a privação dos confortos mínimos dá a dimensão do quanto esse grupo abriu mão das necessidades individuais em nome da sobrevivência durante a guerra.

Tudo isso é visto através das interpretações de um elenco sintonizado com as privações e o horror típicos dos períodos de exceção. Cenas simples, mas carregadas de poesia e solidão. Cenário enxuto para valorizar o essencial neste espaço onde quase tudo é proibido em nome da salvação do grupo. Uma mesa, algumas malas de onde saem adereços e peças de roupa, velas, uma escada, um lampião, um casacão e as tábuas do chão. Lugar traiçoeiro onde todo o cuidado é pouco, o silêncio é de ouro e por onde o inimigo pode entrar a qualquer momento. Nesse clima de constante atenção e privação da individualidade, os pequenos prazeres são vividos como goles de água preciosa, pois mostram a pulsão de vida agonizando num porão onde os sonhos sujeitos a estagnação e ao mofo, precisam ser cultivados com fé sem o ar puro e a luz do sol. Onde mesmo na clausura e na total ausência de objetivo, exceto o de resistir, o amor floresce através de Anne e Peter. Sua paixão juvenil correspondida, prova que a ternura e a descoberta do outro é possível, mesmo em condições extremas de abuso de espaço e nas prisões mais inusitadas. O Anexo Secreto apresenta um mundo povoado de fantasmas reais de uma época recente cuja dor e lamento lancinante, ainda geme em nossos ouvidos. Parabéns a equipe coesa e unida que tornam essa história, infelizmente, atual e profundamente comovente.

Eleonora Prado

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