Apreciação crítica, Nora Prado, Porto Verão Alegre 2017.

É muito bom ir ao teatro quando o jogo acontece despojado de cenários e efeitos bombásticos. Quando a direção investe na simplicidade e na verdade da cena, na interação verdadeira entre os seus intérpretes. Quando o texto é pretexto para que o subtexto flua solto e comprometido com os sentimentos e pulsões legítimas dos personagens. Quando há ambiguidade e dissonâncias, próprias, da vida real. Adoramos o espelho da arte para nos vermos inteiros e com lentes de aumento, principalmente quando isso é feito com o humor e suas ferramentas preciosas de ritmo e intensidade. Rir de nós mesmos e das nossas limitações ordinárias é um bálsamo para aliviar nossa necessidade de perfeição e aprovação. Atenuar nossas carências e aceitar o ridículo natural da nossa condição humana.

O espetáculo Dez (quase) Amores consegue essa simples façanha. De maneira natural e tão despretensiosamente que embarcamos na proposta sem restrições, como crianças. A narrativa simples, com diálogos ligeiros e bem urdidos, revela-se aliado para a equipe que se reveza com domínio entre os personagens para contar a história de Maria Ana através dos seus amores da adolescência até a idade adulta. Atravessando décadas e seus costumes correspondentes a peça mostra o cotidiano divertido e típico de cada fase, seus principais contextos históricos e políticos e com o hit musical da época. Os desafios familiares, preconceitos, conflitos amorosos, amizades e sonhos da menina que vira mulher, vai revelando que a vida é mais imprevisível do que almeja a nossa vã filosofia. Com cenário enxuto e figurinos que traduzem o essencial de cada década com sua natureza específica evocam desde os anos sessenta até os nossos dias com sintética eficiência. A iluminação valoriza os espaços que assumem lugares e tempos definidos pela ótima atuação do grupo.

Os personagens possuem graça e carisma, na medida, para se transformarem em seres humanos dignos de empatia, pois se revelam potentes das características verdadeiras comuns a todos nós. Ciúmes, raiva, medo, prazer, ironia, e todas as qualidades e defeitos passam pelas histórias povoadas de ritmo e non sense. Rimos e nos comovemos com as venturas e desventuras de uma mulher com múltiplas habilidades e sonhos que se alteram conforme a pátina da vida vai forjando o seu próprio destino. Dez (quase) Amores se apoia no teatro essencial onde as convenções do teatro são plenas de sentido e se constroem tranquilamente diante dos nossos olhos maravilhados. Com o poder da comunicação e da exposição feita com humor da melhor qualidade e atores ocupados em fazer o seu melhor num conjunto harmonioso. Conseguem agir numa história plena de alegria e ternura. Uma bela lição de recursos corporais e gestuais que aproveita o melhor de uma referência mítica do teatro gaúcho: “Bailei na Curva”. [Sem pretender uma imitação formal, mas aproveitando o melhor de sua fonte, a simplicidade e honestidade para contar uma boa história.

Eleonora Prado

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