Apreciação Crítica, A Doce Bárbara, Porto Verão Alegre 2017.

Maria Bethânia e suas canções maravilhosas, sua presença iluminada permanece imune ao tempo. Sua graça permanece intacta, e mais bela do que nunca, na interpretação minuciosa e divertida de Antônio Carlos Falcão. Depois de mais de três décadas Falcão/Bethânia atinge inconteste ao ponto de excelência a que um show – biografia pode alcançar. Nada menos do que “os píncaros da glória”!Pois nos comove sem esforço, nos entusiasma sem apelos e nos toca a alma pela veia pulsante e única dessa cantora singular brasileira. Ele se transmuta e se converte inteiro da raiz do cabelo até o dedão do pé, da risada e do deboche até a sublimação da alma da artista que dança e voa soberana sobre o palco. Numa mimetização digna de encantamento e perplexidade, pois além de encarnar o timbre, o gesto, a movimentação e o senso de humor da própria diva, Falcão nunca esteve tão à vontade e idêntico a sua musa inspiradora. Trabalho lapidado, há anos, que se derrama pleno de potência radiante aos nossos olhos e sentidos eletrizados. Falcão se entrega de corpo e espírito como a um sacrifício absolutamente perfeito. Desaparece sobre essa pele e essa chama chamada Maria Bethânia.

O que acontece em cena diante de nós é mágica e transcendência. Não é para menos que quando o irmão Caetano Veloso assistiu a uma apresentação no bar Ocidente, anos atrás, se surpreendeu com a “imitação” de Betânia, mas principalmente com sua personalidade, verve típica de mulher apaixonada e poeta do verbo. Atriz, orixá, deusa e rosa dos ventos triunfantes sobre o palco quando canta e dança com toda graça. Rainha cuja musicalidade e ritmo africano saúdam a gênese da canção popular brasileira. O espetáculo, que permanece anos em cartaz, promete e cumpre com a proposta de trazer Maria Bethânia intacta a cada noite para cada um de nós. Um show intimista e arrebatador que passeia pelos grandes sucessos da cantora enquanto narra sua fabulosa história de como nasceu, cresceu e se sagrou essa mulher mítica.

Um desses raros momentos de perfeição, alquimia celeste e telúrica que acontecem quando intérprete e personagem se fundem numa persona cujo magnetismo inebria e convence imediatamente. O elenco de músicos competentes, afinadíssimos e, tão talentosos quanto Falcão, dão conta do recado de fazer dessa performance um espetáculo digno de qualquer casa noturna de qualidade do país. Uma aula de composição e domínio técnico aliado a um roteiro cênico musical de primeira. Musical de impacto visual e estético digno de rodar o Brasil para que mais pessoas atestem essa viagem deliciosa na vida de uma das suas mais belas musas.

Doçuras da Doce Bárbara faz jus a grandeza de sua matriz poética e musical Maria Bethânia que talvez fique de fato assombrada caso a veja a si mesma transfigurada na pele simbiótica de Antônio Carlos Falcão. Bravo e aquele axé pra essa real menininha do Gantois.

Eleonora Prado

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